A cirurgia cardíaca na era do vídeo e da robótica.
      30/08/10

    

Em 2010 comemora-se o centenário de um interessante fato médico. Justamente há cem anos um clínico sueco, trabalhando em Estocolmo, utilizava pela primeira vez uma cânula para observar o interior do tórax. Hans Christian Jacobaeus seu nome. Nascia a toracoscopia. Hoje um método videocirúrgico amplamente utilizado em diversos procedimentos.

A cirurgia cardíaca é uma especialidade médica que vive um momento de profunda transformação. Para os cirurgiões que conheceram os “bons velhos tempos” sabem que aqueles não voltam mais. Imagino que os cirurgiões mais velhos, alguns não mais entre nós, se sentiam intocáveis. Na verdade, os cirurgiões cardiovasculares sempre foram revestidos de certa nobreza e respeitados pelos pares.
Como ciência, a cirurgia avança rapidamente para procedimentos menos invasivos e traumáticos. Compete a nós cirurgiões avaliar toda tecnologia disponível e absorver o que torne os procedimentos mais seguros para nossos pacientes, sempre guiados pelo juízo ético.
Foi assim que durante meu treinamento em cirurgia geral, em cirurgia cardiovascular e, principalmente, em cursos de pós-graduação fora do país me envolvi com a videocirurgia.  Decidi, a partir do aprendizado cirúrgico, empregar técnicas menos traumáticas, com intuito de beneficiar os pacientes por mim operados.

Quando realizei a primeira videocirurgia cardíaca do Norte e Nordeste em Fortaleza em outubro de 2008, logo percebi que outras habilidades, competências e parcerias seriam exigidas dos cirurgiões mais jovens. Dois anos depois, com aumento significante de minha experiência, acredito cada vez mais que seja necessária uma mudança filosófica e conceitual na forma de planejar e de realizar a cirurgia. Isto porque existe uma considerável mudança no fundamento do procedimento cirúrgico com emprego do vídeo. No acesso tradicional para a cirurgia é necessária uma grande incisão (de aproximadamente 25 cm de comprimento), com divisão completa do osso do peito (esterno) e sob ampla visão direta. No acesso videocirúrgico com uma microcâmera de alta definição, é possível realizar uma pequena incisão (5 cm) utilizando o espaço compreendido entre as costelas.

Na última semana fui convidado para dar início as atividades em videocirurgia cardíaca em um centro em Natal/RN. O procedimento consistiu no fechamento de um defeito do septo atrial. Após três horas de cirurgia, o paciente foi encaminhado extubado para a UTI. Permaneceu por 24 horas. Após dois dias na enfermaria, recebeu alta hospitalar.

Mais recentemente acompanhei um colega na execução de cirurgias cardíacas empregando sistema de telemanipulação. A tão em evidência cirurgia robótica.

Noticiada pela revista IstoÉ e pelos canais de telecomunicação. Realmente foi um grande passo, pois além de se tratar dos primeiros procedimentos da América Latina, insere nosso país em posição de destaque na comunidade médica internacional.
Desse modo, incentivado por meu colega, decidi realizar o treinamento com o robô da Vinci. Foi muito interessante, mas será que esta tecnologia irá tomar conta dos procedimentos cirúrgicos cardiovasculares no futuro?

Por enquanto, prefiro refletir comparativamente com o quanto evoluiu a aviação civil. Para operar as aeronaves mais antigas os comandantes de vôo tinham completo controle. Hoje em dia os comandantes delegam parte do controle a instrumentos automatizados.
Assim, nesta era de inovação tecnológica, tenho muita convicção que em nosso estado e na região Nordeste poderemos realmente contribuir para o bem-estar e para uma melhor atenção em saúde da população.




Josué V. Castro Neto
Cirurgião Cardiovascular



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